sábado, 24 de setembro de 2016

uma palavra


O meu filho, de três anos, tem uma amiga que não fala português. Sabe apenas uma palavra: banana. Para mim, tornou-se a palavra mais bonita do mundo. Acho que se pode viver com uma só palavra.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Os indicadores da Tia Manecas

Lobito, 1972-73

(talvez uma das recordações mais antigas)

Tap...tap...tap
tap...tap,tap, tap...tap,

Os indicadores da Tia Manecas,
a bater no volante do carro.
Uma caixa de viagem
que nos mudava de mundo.

Ao fim da tarde,
nem sempre
(porque as tarefas eram partilhadas entre um Mini Moke e um Autobianchi café com leite),
os dedos nervosos da Tia Manecas
contrastavam com o cabelo estático, atento.
E denunciavam o ritmo de um coração cheio.
Ora harmonioso,
tap, tap, tap
ora contrastante no desejo
taptaptap tap tap taptap

Os polegares colados ao volante.
E aqueles indicadores:
tap-tap-tap-tap,
como pestanas,
limpavam-me o olhar
e traziam-me o ritmo da vida,
o compasso da dança do fim da tarde.
Ao som do riso,
das histórias atropeladas,
do cheiro a mar,
das cores garridas.

Aqueles indicadores,
tap,tap,tap,
tap...tap...tap
taptaptap

Nervosos,
precisos,
tão conscientes da função
e tão longe da realidade.

Ali,
a marcar o passo de uma vida que parecia infinita.
Ali,
a brincar com o tempo.
Tap,    tap,    tap.
E os minutos a correrem,
irónicos...
Tap,     tap,     tap,     tap.

Na ponta daqueles indicadores,
no segundo preciso que desenham o ar,
volto ao calor.
Às pedras polidas do colégio,
à azáfama do fim da tarde,
à ilusão de uma vida que se escolhe.

Ali,
na ponta daqueles indicadores,
volto a ser feliz.

24 de Fevereiro de 2015

domingo, 27 de janeiro de 2013

das chegadas e outras visitas


Chega o novo ano sem surpresas. Vem a passo, como sempre, a seguir ao 31 de Dezembro. Faz um clique discreto à passagem das zero horas e nada mais.
A euforia é dos outros. Dos que gritam surdos de raiva ou esperança, de ilusão ou desepero, dos que acendem luzes, tocam cornetas ou disparam tiros que teimam em acertar nos filhos de alguém. De equívoco em equívoco, os comentadores de rua vão dizendo que o novo ano nada traz de bom, que a vida vai ser muito pior e vaticinam os horrores vindos da Europa, encharcando-me de um pessimismo que sabe a lama.

Limpo-me como posso, e olho mais além, com a tranquila convicção de que o ano que me traz um filho não poderá ser assim.






quinta-feira, 29 de março de 2012

Cem palavras

“…E desejo as maiores felicidades ao candidato”. O presidente cala-se com um aceno. Vestido a rigor, de fato emprestado, Guilhermino ouve o suor abrir a porta e sair devagar, deslizando numa viagem penosa. Primeiro pela fronte, depois, gota a gota, numa corrente imensa de medo e orgulho que desagua num rendilhado discreto sob a camisa.

O coração, de um arranque inusitado, engole a língua e as palavras com ela. Numa dança pouco clássica, os olhos marcam passo nas letras encavalitadas sem sentido. O rio galga os sapatos, e o corpo, humilhado, desfaz-se nesse tremor viscoso.

Do infeliz, nem uma palavra.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

blogue em coma

Oiço o som da respiração fora de mim. Subo e desço a um ritmo mecânico que não me pertence. Sei que não morri mas nada mexe. Nem um desejo, nem um arrepio, nem sim nem não, nada. Não morri porque me oiço pensar. Ou será que sim, exactamente por isso?
A dúvida inquieta-me. Se o faz, não morri. Estou vivo! Sem dúvida.

O que parecia um movimento, apagou-se.

De novo o som fora de mim...para cima, para baixo, para cima, para baixo, a um ritmo falso, inexpressivo. Ao longe, vozes trazem palavras que oiço como se fossem pedras num riacho. Uma imagem! Vida?! Hum... não... lá está..., para cima, para baixo, para cima, para baixo. Ninguém respira assim. Nem um blogue.

Deixo o pensamento cair. Um dia voltarei a ele e dar-lhe-ei a forma duma palavra. Hoje não.
Volto para dentro. Para cima e para baixo, para cima, para baixo, para cima...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

...um dia roubo a Páscoa.

"Pão quente e uvas, é do que me lembro quando penso nessa terra", diz-me a filha de uma cliente, colando mais um cromo de histórias numa caderneta de memórias já gasta. 

Numa frase, volto a Pinhel. O consultório molda-se ao odor perdido e volto à pequena sala de jantar onde na Páscoa, à espera do almoço de Domingo, descansavam os pastéis do Egipto. Proibidos, enchiam o ar de pecado que se transformava em saliva, na boca repleta de desejo.

A Páscoa era assim: um cheiro de bolos misturado com a lenha seca, barulhenta, a braseira a matar devagar, as corridas de casa em casa a visitar velhas senhoras carregadas de histórias sequestradas ao futuro. A paixão vestia-se de roxo, Judas ardia na praça e o coração tremia de vida.

Perco-me na imagem roubada. Com o cheiro quente das uvas de Setembro, chegam-me as tardes irrespiráveis, de calor seco, pintadas com fotografias de mulheres estranhas que nos atiravam, implacáveis, os traços em que nos iríamos tornar. Quanto mais longe nos sentíamos daquele passado, mais perto ele estava de nos apanhar.  

Volto a Pinhel, a uma casa fechada que acolhe lenços onde os lábios deixaram segredos, postais irreconhecíveis, cartas sem remetente, flores secas por entre páginas anónimas. Não há sótão nem cave, apenas um corredor que cospe quartos e salas de paredes brancas, impávidas guardadoras de vidas.

Fecho a porta devagar, sem ruído. Não as quero acordar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

de faca e alguidar

O ano começou assim: “o pato não deve ter mais que 8 semanas e mata-se por asfixia para que não perca o sangue; guarda-se o fígado. Prepara-se primeiro um consommé bem temperado feito dos ossos de outro pato morto na véspera. Depois o nosso patinho vai assar no espeto apenas durante 20 minutos. Trincha-se às fatias, retirando as coxas que vão grelhar à parte. Esmaga-se a carcaça numa prensa especial e o líquido sanguíneo escorrente junta-se ao consommé já preparado. Esborracha-se o fígado, mistura-se com um copo de vinho do Porto e outro de conhaque, acrescenta-se ao caldo anterior e rega-se ainda com sumo de limão…”*.

Desde então começou a chover e não mais parou.

Conto os dias para a empada de rosas…


* Quitério, J (1996) Pato à Tour d’Argent in Culinário 2010, Assírio & Alvim