quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diga-me, minha senhora, a que horas passa essa história de amor?

(À T., que descobriu que há muitos autocarros que não param onde queremos)

Muito pequena, não sei bem que idade tinha, mas os olhos ainda se abriam de surpresa em surpresa e brilhavam com o riso. Lembro-me dele, mas não me lembro do seu nome. Perdi-o.

Era da minha altura pois os seus olhos batiam nos meus, rodeados de uns caracóis que me faziam cócegas no nariz. Passávamos dias inteiros a correr à procura de aventuras, a caçar borboletas, a borrifar as horas com o leite em pó com que enchíamos a boca.

Lembro-me de fugirmos dos outros, na nossa brincadeira preferida, e de nos escondermos no armário do Tio Artur, uma arca gigante que navegava ao nosso desejo. Aí, muito escondidos, descobríamos partes um do outro. Mostrava a barriga em troca de um beijo na cara. O amor começou assim para mim, em trocas comerciais em que um não podia dar sem receber. Os nossos corpos foram-se revelando por entre uma fuga ao jogo das escondidas e o armário do Tio Artur.

Um dia, a aventura comercial cruzou-se com um carrinho verde, opulento. E o meu primeiro amor trocou-me por um objecto absurdo, que se deixava empurrar sem um pouco de vontade própria, submisso, numa ausência total de imaginação.

Não me lembro se chorei, mas o nome dele, não o perdi. Deitei-o fora!