quinta-feira, 29 de março de 2012

Cem palavras

“…E desejo as maiores felicidades ao candidato”. O presidente cala-se com um aceno. Vestido a rigor, de fato emprestado, Guilhermino ouve o suor abrir a porta e sair devagar, deslizando numa viagem penosa. Primeiro pela fronte, depois, gota a gota, numa corrente imensa de medo e orgulho que desagua num rendilhado discreto sob a camisa.

O coração, de um arranque inusitado, engole a língua e as palavras com ela. Numa dança pouco clássica, os olhos marcam passo nas letras encavalitadas sem sentido. O rio galga os sapatos, e o corpo, humilhado, desfaz-se nesse tremor viscoso.

Do infeliz, nem uma palavra.

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