Oiço o som da respiração fora de mim. Subo e desço a um ritmo mecânico que não me pertence. Sei que não morri mas nada mexe. Nem um desejo, nem um arrepio, nem sim nem não, nada. Não morri porque me oiço pensar. Ou será que sim, exactamente por isso?
A dúvida inquieta-me. Se o faz, não morri. Estou vivo! Sem dúvida.
O que parecia um movimento, apagou-se.
De novo o som fora de mim...para cima, para baixo, para cima, para baixo, a um ritmo falso, inexpressivo. Ao longe, vozes trazem palavras que oiço como se fossem pedras num riacho. Uma imagem! Vida?! Hum... não... lá está..., para cima, para baixo, para cima, para baixo. Ninguém respira assim. Nem um blogue.
Deixo o pensamento cair. Um dia voltarei a ele e dar-lhe-ei a forma duma palavra. Hoje não.
Volto para dentro. Para cima e para baixo, para cima, para baixo, para cima...
quarta-feira, 4 de maio de 2011
segunda-feira, 10 de maio de 2010
...um dia roubo a Páscoa.
"Pão quente e uvas, é do que me lembro quando penso nessa terra", diz-me a filha de uma cliente, colando mais um cromo de histórias numa caderneta de memórias já gasta.
Numa frase, volto a Pinhel. O consultório molda-se ao odor perdido e volto à pequena sala de jantar onde na Páscoa, à espera do almoço de Domingo, descansavam os pastéis do Egipto. Proibidos, enchiam o ar de pecado que se transformava em saliva, na boca repleta de desejo.
A Páscoa era assim: um cheiro de bolos misturado com a lenha seca, barulhenta, a braseira a matar devagar, as corridas de casa em casa a visitar velhas senhoras carregadas de histórias sequestradas ao futuro. A paixão vestia-se de roxo, Judas ardia na praça e o coração tremia de vida.
Perco-me na imagem roubada. Com o cheiro quente das uvas de Setembro, chegam-me as tardes irrespiráveis, de calor seco, pintadas com fotografias de mulheres estranhas que nos atiravam, implacáveis, os traços em que nos iríamos tornar. Quanto mais longe nos sentíamos daquele passado, mais perto ele estava de nos apanhar.
Volto a Pinhel, a uma casa fechada que acolhe lenços onde os lábios deixaram segredos, postais irreconhecíveis, cartas sem remetente, flores secas por entre páginas anónimas. Não há sótão nem cave, apenas um corredor que cospe quartos e salas de paredes brancas, impávidas guardadoras de vidas.
Fecho a porta devagar, sem ruído. Não as quero acordar.
Numa frase, volto a Pinhel. O consultório molda-se ao odor perdido e volto à pequena sala de jantar onde na Páscoa, à espera do almoço de Domingo, descansavam os pastéis do Egipto. Proibidos, enchiam o ar de pecado que se transformava em saliva, na boca repleta de desejo.
A Páscoa era assim: um cheiro de bolos misturado com a lenha seca, barulhenta, a braseira a matar devagar, as corridas de casa em casa a visitar velhas senhoras carregadas de histórias sequestradas ao futuro. A paixão vestia-se de roxo, Judas ardia na praça e o coração tremia de vida.
Perco-me na imagem roubada. Com o cheiro quente das uvas de Setembro, chegam-me as tardes irrespiráveis, de calor seco, pintadas com fotografias de mulheres estranhas que nos atiravam, implacáveis, os traços em que nos iríamos tornar. Quanto mais longe nos sentíamos daquele passado, mais perto ele estava de nos apanhar.
Volto a Pinhel, a uma casa fechada que acolhe lenços onde os lábios deixaram segredos, postais irreconhecíveis, cartas sem remetente, flores secas por entre páginas anónimas. Não há sótão nem cave, apenas um corredor que cospe quartos e salas de paredes brancas, impávidas guardadoras de vidas.
Fecho a porta devagar, sem ruído. Não as quero acordar.
segunda-feira, 8 de março de 2010
de faca e alguidar
O ano começou assim: “o pato não deve ter mais que 8 semanas e mata-se por asfixia para que não perca o sangue; guarda-se o fígado. Prepara-se primeiro um consommé bem temperado feito dos ossos de outro pato morto na véspera. Depois o nosso patinho vai assar no espeto apenas durante 20 minutos. Trincha-se às fatias, retirando as coxas que vão grelhar à parte. Esmaga-se a carcaça numa prensa especial e o líquido sanguíneo escorrente junta-se ao consommé já preparado. Esborracha-se o fígado, mistura-se com um copo de vinho do Porto e outro de conhaque, acrescenta-se ao caldo anterior e rega-se ainda com sumo de limão…”*.
Desde então começou a chover e não mais parou.
Conto os dias para a empada de rosas…
* Quitério, J (1996) Pato à Tour d’Argent in Culinário 2010, Assírio & Alvim
Desde então começou a chover e não mais parou.
Conto os dias para a empada de rosas…
* Quitério, J (1996) Pato à Tour d’Argent in Culinário 2010, Assírio & Alvim
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Diga-me, minha senhora, a que horas passa essa história de amor?
(À T., que descobriu que há muitos autocarros que não param onde queremos)
Muito pequena, não sei bem que idade tinha, mas os olhos ainda se abriam de surpresa em surpresa e brilhavam com o riso. Lembro-me dele, mas não me lembro do seu nome. Perdi-o.
Era da minha altura pois os seus olhos batiam nos meus, rodeados de uns caracóis que me faziam cócegas no nariz. Passávamos dias inteiros a correr à procura de aventuras, a caçar borboletas, a borrifar as horas com o leite em pó com que enchíamos a boca.
Lembro-me de fugirmos dos outros, na nossa brincadeira preferida, e de nos escondermos no armário do Tio Artur, uma arca gigante que navegava ao nosso desejo. Aí, muito escondidos, descobríamos partes um do outro. Mostrava a barriga em troca de um beijo na cara. O amor começou assim para mim, em trocas comerciais em que um não podia dar sem receber. Os nossos corpos foram-se revelando por entre uma fuga ao jogo das escondidas e o armário do Tio Artur.
Um dia, a aventura comercial cruzou-se com um carrinho verde, opulento. E o meu primeiro amor trocou-me por um objecto absurdo, que se deixava empurrar sem um pouco de vontade própria, submisso, numa ausência total de imaginação.
Não me lembro se chorei, mas o nome dele, não o perdi. Deitei-o fora!
Muito pequena, não sei bem que idade tinha, mas os olhos ainda se abriam de surpresa em surpresa e brilhavam com o riso. Lembro-me dele, mas não me lembro do seu nome. Perdi-o.
Era da minha altura pois os seus olhos batiam nos meus, rodeados de uns caracóis que me faziam cócegas no nariz. Passávamos dias inteiros a correr à procura de aventuras, a caçar borboletas, a borrifar as horas com o leite em pó com que enchíamos a boca.
Lembro-me de fugirmos dos outros, na nossa brincadeira preferida, e de nos escondermos no armário do Tio Artur, uma arca gigante que navegava ao nosso desejo. Aí, muito escondidos, descobríamos partes um do outro. Mostrava a barriga em troca de um beijo na cara. O amor começou assim para mim, em trocas comerciais em que um não podia dar sem receber. Os nossos corpos foram-se revelando por entre uma fuga ao jogo das escondidas e o armário do Tio Artur.
Um dia, a aventura comercial cruzou-se com um carrinho verde, opulento. E o meu primeiro amor trocou-me por um objecto absurdo, que se deixava empurrar sem um pouco de vontade própria, submisso, numa ausência total de imaginação.
Não me lembro se chorei, mas o nome dele, não o perdi. Deitei-o fora!
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
outono
Lento se despega o corpo da pedra quente.
Sinto-o ganhar vida num borbulhar baixinho. O que era plano inicia a viagem de regresso e ganha forma. Em breve há-de vir uma palavra, e depois outra. De novo há-de nascer um período.
Aguardemos.
Sinto-o ganhar vida num borbulhar baixinho. O que era plano inicia a viagem de regresso e ganha forma. Em breve há-de vir uma palavra, e depois outra. De novo há-de nascer um período.
Aguardemos.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
o som do dia
Sou uma fotógrafa de palavras. Apanho-as num momento e perpetuo-as num livro amarelo que sempre me acompanha.
Por uma boa palavra já corri no asfalto quente, onde os meus pés descalços se derretiam numa língua preta que os engolia sem dó. Ainda sinto o cheiro amargo do alcatrão colado aos pulmões, transformando o rosa em castanho escuro.
Revejo-me numa praia vermelha onde, por uma palavra, me atirei ao mar e me deixei enrolar numa onda fria, de um azul brutal que desmaiava num segundo estrondoso. Cacei esse rugido numa folha branca, macia, livre.
Por uma palavra fui capaz de abrir a boca, sentir o vento afastar as bochechas, enchê-las de ar doce em pequenas bolas de algodão. Oiço-as dissolverem-se na boca como os estalinhos que comia em criança e que rebentavam aleatórios, fazendo os olhos fecharem-se assustados. Quando era forte, mesmo forte, os olhos enchiam-se de umas lágrimas curtas, muito tímidas, que se escondiam dos amigos.
Por uma palavra, comi um escorpião. Foi num lugar longínquo, numa noite húmida em que o calor transformava as gotas de suor que corriam pela pele escura, em cascatas reluzentes. O restaurante local era um espaço roubado ao passeio, em que um néon agressivo contornava a transparência lânguida das osgas. O som era uma mistura de ditongos incompreensíveis, carregados de expressões mais ou menos amistosas consoante a temperatura da cerveja.
A animação era total: empregados empapados faziam passar os pratos por cima das cabeças de um grupo de australianos cor-de-laranja, atiravam cervejas nacionais para um balde gigante repleto de gelo, traziam enormes fogareiros com carvão incandescente e gritavam pedidos para a cozinha. "Paraíso da cozinha local", disseram, como recomendação. E eu acreditei!
Finalmente, veio: um escorpião negro, em espeto, luzidio pelo óleo da fritura. Pareceu-me enorme e duvidei do sucesso da aventura. Mas encarei-o e trinquei uma perna ainda a medo. Partiu-se numa vontade crocante, de casca rija. A língua enrolou-se numa mistura de papel de arroz e migalhas de conchas finas. Ouvia o coração disparar e os ouvido enchiam-se de um ritmo cada vez mais rápido. A estranheza deu lugar à vontade de acabar depressa com aquilo e o corpo castanho-claro foi comido em dentadas largas. Na boca, a cerveja fria e amarga, limpou os restos de um sabor sem alma.
Por uma palavra, vou pelo silêncio e encaixo-me na sombra de um jasmim, onde uma carocha abre as asas e me devolve ao espaço. Talvez volte para contar.
Por uma boa palavra já corri no asfalto quente, onde os meus pés descalços se derretiam numa língua preta que os engolia sem dó. Ainda sinto o cheiro amargo do alcatrão colado aos pulmões, transformando o rosa em castanho escuro.
Revejo-me numa praia vermelha onde, por uma palavra, me atirei ao mar e me deixei enrolar numa onda fria, de um azul brutal que desmaiava num segundo estrondoso. Cacei esse rugido numa folha branca, macia, livre.
Por uma palavra fui capaz de abrir a boca, sentir o vento afastar as bochechas, enchê-las de ar doce em pequenas bolas de algodão. Oiço-as dissolverem-se na boca como os estalinhos que comia em criança e que rebentavam aleatórios, fazendo os olhos fecharem-se assustados. Quando era forte, mesmo forte, os olhos enchiam-se de umas lágrimas curtas, muito tímidas, que se escondiam dos amigos.
Por uma palavra, comi um escorpião. Foi num lugar longínquo, numa noite húmida em que o calor transformava as gotas de suor que corriam pela pele escura, em cascatas reluzentes. O restaurante local era um espaço roubado ao passeio, em que um néon agressivo contornava a transparência lânguida das osgas. O som era uma mistura de ditongos incompreensíveis, carregados de expressões mais ou menos amistosas consoante a temperatura da cerveja.
A animação era total: empregados empapados faziam passar os pratos por cima das cabeças de um grupo de australianos cor-de-laranja, atiravam cervejas nacionais para um balde gigante repleto de gelo, traziam enormes fogareiros com carvão incandescente e gritavam pedidos para a cozinha. "Paraíso da cozinha local", disseram, como recomendação. E eu acreditei!
Finalmente, veio: um escorpião negro, em espeto, luzidio pelo óleo da fritura. Pareceu-me enorme e duvidei do sucesso da aventura. Mas encarei-o e trinquei uma perna ainda a medo. Partiu-se numa vontade crocante, de casca rija. A língua enrolou-se numa mistura de papel de arroz e migalhas de conchas finas. Ouvia o coração disparar e os ouvido enchiam-se de um ritmo cada vez mais rápido. A estranheza deu lugar à vontade de acabar depressa com aquilo e o corpo castanho-claro foi comido em dentadas largas. Na boca, a cerveja fria e amarga, limpou os restos de um sabor sem alma.
Por uma palavra, vou pelo silêncio e encaixo-me na sombra de um jasmim, onde uma carocha abre as asas e me devolve ao espaço. Talvez volte para contar.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Plic ploc
Ia tranquila pela vida quando tropecei num bocado de mim. Era cor-de-rosa, o que estranhei; não uso essa cor na minha pele. Olhei-a espantada. Pareceu-me vagamente familiar.
Era a parte esquecida.
Estava envolta em alcatrão, de tanto rebolar por uma estrada qualquer. Peguei nela com alguma estranheza, confesso. Sacudi-lhe o pó acreditando encontrar uma qualquer referência, tipo número de motor. Precisava de saber de onde vinha. Vi uma pequena janela num dos topos e espreitei. Ao princípio tudo escuro, pouco definido. Depois o olho acostumou-se à escuridão do passado e desenhou as curvas dos sonhos esquecidos. Ali estavam elas, as ideias do que deveria ter sido. Inquieta, soprei. Não se mexeram. Firmes, mostravam-me soberbas, que o poder das ideias não desaparece na brita. Voltam sempre, às vezes pelo chão, outras aterram-nos em cima com a brutalidade de um traumatismo craneano. Mudamos ao sabor da vontade das crianças esquecidas, não antes, nem depois.
Pus a parte de mim por debaixo do braço e afaguei-a. Não sei onde a voltar a pôr, mas sei que já não poderei continuar a viver sem ela.
Era a parte esquecida.
Estava envolta em alcatrão, de tanto rebolar por uma estrada qualquer. Peguei nela com alguma estranheza, confesso. Sacudi-lhe o pó acreditando encontrar uma qualquer referência, tipo número de motor. Precisava de saber de onde vinha. Vi uma pequena janela num dos topos e espreitei. Ao princípio tudo escuro, pouco definido. Depois o olho acostumou-se à escuridão do passado e desenhou as curvas dos sonhos esquecidos. Ali estavam elas, as ideias do que deveria ter sido. Inquieta, soprei. Não se mexeram. Firmes, mostravam-me soberbas, que o poder das ideias não desaparece na brita. Voltam sempre, às vezes pelo chão, outras aterram-nos em cima com a brutalidade de um traumatismo craneano. Mudamos ao sabor da vontade das crianças esquecidas, não antes, nem depois.
Pus a parte de mim por debaixo do braço e afaguei-a. Não sei onde a voltar a pôr, mas sei que já não poderei continuar a viver sem ela.
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